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O luto e o silêncio - Crônica

04/10/2018 - Taíla Quadros
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Tudo começou de manhãzinha, era inverno. O frio e a chuva se faziam presentes na rotina de todos, todos os dias. Mesmo com a normalidade do dia, ela percebeu que algo estava diferente. Levantou-se rapidamente, sem mesmo prestar atenção ao chão frio em que acabara de pisar ou à corrente de ar que passava por entre as frestas das janelas.

 

Procurou um espelho, aquele que já estava manchado por anos de existência na parede da casa da sua avó. Fora um presente de casamento. Que a sua avó ganhou, não ela, obviamente. Ela não ganharia essas coisas. A ela não pertenciam essas felicidades da vida. A ela restavam as sobras e o conformismo. Para ela tinha ficado o quartinho da empregada, úmido, escuro, com a pintura das paredes desgastada, o que tornava tudo ainda mais deprimente. Restara isso e o espelho. O velho espelho da avó que ninguém queriam mais.

 

Logo após o seu falecimento, ela lembra que todos brigaram pelos bens da senhora que, assim como ela, estava abandonada há anos na casa velha. Uma fazendo companhia para a outra. Ambas esquecidas por um filho e um pai que tinha muitas ocupações e muitos outros interesses em sua lista de prioridades.

 

Voltou a se olhar e começou a procurar o que estava faltando. Olhou rapidamente para seu corpo vestindo apenas uma camisola velha, gasta e com algumas manchas causadas pelo tempo e pela umidade constante do local, que também era uma herança da sua avó. Na verdade ela sentia que estava pegando tudo emprestado, que nada ali era seu, que devia aos outros até o espaço que ocupava e o ar que respirava. Todos ali a deixavam com a sensação de dívida, de que ela não deveria estar ali, que deveria ter sumido no mesmo momento em que a avó se foi. Mas o que fazer? Para onde ir?

 

Todas essas dúvidas passavam constantemente pela sua cabeça, principalmente quando eles estavam por perto, quando ela não conseguia fugir à sua presença. Esses eram os piores momentos, as conversas forçadas eram ainda piores do que os silêncios acusadores e olhares de desdém. Esses ela podia simplesmente ignorar e sair sem dar explicações, mas as conversas sempre doíam, vinham carregadas de ódio e desprezo. Se ela tentasse sair, eles a perseguiam, as vozes continuavam mesmo que ela fechasse a porta e escondesse a cabeça embaixo do travesseiro.

 

E, sem saber como, todas essas coisas vinham à tona quando ela se olhava no espelho, especialmente, naquele espelho que ela teve que trazer escondido, que ninguém queria, mas não desejam que ela ficasse com ele, porque, assim, ela teria algo. Assim ela teria como ver a si mesma e entender que ela não era esse monstro que todos diziam, que não era uma aberração, que não tinha nada de errado com ela e que não foi por sua culpa que a Naná se foi. Ela sabia, mas, bem lá no fundo, as vozes de todos ainda a acusavam, as mesmas pessoas que nunca fizeram uma visita, nunca estiveram com elas nesse momento difícil. Ninguém melhor do que ela sabia de verdade o que a avó havia passado. Os pesadelos, os medos, os gritos, as visões e o silêncio. Essa era a pior parte. O silêncio vinha mostrar que tudo poderia ser pior, que tudo poderia acabar a qualquer momento e que ela ficaria sozinha. De novo.

 

Novamente conseguiu se concentrar na sua imagem refletida. Viu os pés descalços, as canelas magras e foi direto ao rosto, fazia tempo que não se encarava, que não encarava seus medos. Ninguém queria que ela tivesse consciência de si mesma, mas nenhum deles percebeu que nem ela conseguia se encarar, se fortalecer. A sua fortaleza tinha ruído, foi embora e nunca mais voltaria. Era apenas ela mesma contra tudo e contra todos.

 

Chegou a parte mais difícil, os olhos. Encarou a si mesma, a coisa que mais temia na vida, e olhou para dentro de si. Viu os medos, as tristezas, as angústias, todas as perdas e toda a dor. Sentiu tudo novamente, momento a momento, instante a instante e se deixou esvaziar. Quando percebeu que nada mais restava, que nada mais era e que nada mais poderia feri-la daquela maneira, sorriu. Uma página em branco após o último abandono, o dela com as suas dores. Aquilo então se foi, finalmente.

 

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